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Jovem aventureiro revive o sonho de Fernão Dias e revela o fantástico mundo do garimpo de esmeraldas!
Fábio Lamachia Carvalho, 28 anos, trabalhava na Internet e era um habitante típico da metrópole paulistana - cansado e estressado em mais um final de ano, a tal ponto que suas mandíbulas doíam de tensão - quando decidiu descansar passando um reveillon na Bahia. Lá, soube que no sertão próximo, na Serra da Carnaíba, em minas de garimpo, tinham sido finalmente encontradas esmeraldas - o sonho verde do título - que jorravam dos buracos da terra. Passou por sua cabeça a trágica história do bandeirante paulista Fernão Dias, que no século XVII tomara o caminho de Minas em busca de seu sonho verde e morrera à margem do rio das Velhas, depois de ter encontrado apenas turmalinas - pedras verdes, sim, mas sem valor.
O espírito aventureiro de Fábio levou-o a abandonar o emprego e enfiar-se dentro da terra, 75 metros abaixo do solo. Ali ele encontrou um mundo estranho e surpreendente. A história desse mundo, de seus habitantes, seus sonhos e suas frustrações temperam o relato deste livro bastante inusitado e original. "Sonho Verde - Aventura num Garimpo de Esmeradas" (Geração Editorial, 264 páginas, mais 24 de fotografias págs., R$ 28,00) revela um Brasil que poucos conhecem.
No meio deste mundo, o cidadão urbano Fábio Lamachia come carne frita de bode com um cheiro impróprio, na companhia de moscas e percevejos; toma banho gelado em gotas; desce às minas dentro de baldes amarrados em cordas, arriscando a vida (alguns personagens da história não chegam vivos ao final), dorme quatro horas a cada dois dias, em média, e sempre ao som das explosões de dinamite. Esqueça Serra Pelada - aquilo era um paraíso comparado ao mundo que Fábio Lamachia conheceu.
Sendo assim, porque Fábio persistiu em sua vida no garimpo, ao longo de meses? Porque, ele explica, o garimpo torna-se um verdadeiro vício. O universo descoberto logo passa a ter o seu irresistível encanto. A vida embaixo da terra passa a ser a sua vida. Mesmo tendo deixado de lado as vitaminas que o médico recomendara, Fábio foi tomado por uma energia que o fazia trabalhar horas a fio, madrugadas seguidas.
E isso não só pelo resultado do trabalho: sacos e sacos de esmeraldas que subiam todos os dias do buraco da terra para a luz do dia. É um estímulo e tanto, sem dúvida, mas também o espírito de aventura, a sensação do novo e diferente, as histórias surpreendentes e até o risco foram elementos vitais na jornada do autor, o que acabou resultando num livro vigoroso e atraente para todos os que gostam de uma boa e surpreendente aventura.
Numa linguagem vibrante, que mistura o rápido e direto português de quem é comunicador com o "garimpês" dos cafundós do Brasil, Fábio vai contando histórias de gente humilde e bruta que vive literalmente debaixo da terra, cavoucando o que depois vai se transformar em jóia rara e cara para embelezar o colo, o dedo ou a orelha de alguma madame pelo mundo afora.
Trata-se de um Brasil tão inóspito, o do garimpo, que para seus habitantes ele nem se chama Brasil. Este nome eles dão ao mundo "lá de fora", da superfície, para onde tem que levar o resultado do trabalho. Quando estão nas entranhas da terra, chamam o seu universo à parte de "Japão". Por isso é que, a determinada altura da história, Fábio se dá conta de um fato curioso, quando o gerente do garimpo o chama, junto com outros garimpeiros, para uma reunião dentro das minas. O assunto: suspeita de roubo. Viu-se, de repente, vestindo seu uniforme de "executivo" - bermuda, meião de futebol, camiseta velha, galochas e um capacete de plástico - para uma importante reunião no "Japão".
São sacadas como essa, de quem viveu na pele uma grande aventura, que tornam "Sonho Verde" um desses livros que prendem irresistivelmente o leitor desde as primeiras linhas. Além de bom observador, Fábio escreve bem. Logo o leitor começa a conviver com incríveis figuras humanas - Bizunga, Gambiarra, o travesti Daniela, Zóio de Lua, Soquete, Braço de Radiola, Fuminho, Galega e o poderoso time do Esmeralda Futebol Clube, liderado pelos craques Raspa de Osso, Unha de Cobra, Biruta, Chassi de Grilo, Jaleco, Mentex e Aspirina. Começa também a conviver com a linguagem típica desse mundo do sonho da riqueza instantânea, onde há tempo para "balangar", fuma-se um "brodway" e tomam-se muitas "caribés", onde eventualmente fica-se "descalqueado" e anda-se pelas "grunas", onde talvez se fique "lombrado" para atingir o grande objetivo, que é sair de lá "malado".
Nesta vida de garimpeiro, em que a tônica é o convívio diário com o perigo, o autor deparou-se com a morte algumas vezes. Viu-a no meio da rua, quando um garimpeiro foi assassinado por um insólito taco de sinuca cortado ao meio (porque quebrou o primeiro mandamento ético do garimpo, ao chamar um companheiro de corno). Sentiu-a na própria carne, com a morte presente a todo instante: na dinamite que explode tardiamente, nos grandes rochas e madeiras que a qualquer momento podem ceder, nas frágeis roldanas usadas para subir e descer das minas, no ataque dos saqueadores, nos fios elétricos desencapados em um ambiente cheio de água, no cotidiano de um trabalho onde tudo acontece mais ou menos no improviso.
Mas Fábio sobreviveu para contar sua emocionante aventura. Mais do que esmeraldas, trouxe de volta uma história de vida, uma experiência de autoconhecimento. Na trilha sonora, Raul Seixas. No coração, a magnífica história que passou para o papel. Lendo "Sonho Verde", é difícil não se apaixonar por esse mundo de sonhos e desencantos, de ilusões e esperanças, de vida e de morte.